domingo

Assédio Moral

Humilhações constantes fizeram uma cicatriz na minha memória
 
Sempre tive um ótimo relacionamento com meus colegas e superiores hierárquicos. Foi assim durante mais de 10 anos, por todas as empresas onde passei, até trabalhar em uma grande ONG, onde fui assediado moralmente pela ex-chefe.
por Wesley Porfírio
 
Ela era uma pessoa com baixa auto-estima e insegura de suas qualificações. Para piorar, tinha ciúme de seu cargo de gerência. E eu, fui contratado como seu assistente. Não demorou muito para ela começar a enviar todos os trabalhos que eu executava com se tivessem sido feitos por ela. Ela tirava a minha assinatura, colocava a dela e, quando questionada, mentia com só ela tendo feito. Não levava isso a sério, mas quando descobri a verdade, pedir que não fizesse mais isso. Foi ai que as coisas pioraram e passei a sofrer humilhações públicas e perseguições: Ela me sobrecarregava de tarefas impossíveis de cumprir, com prazos injustos, para depois me desqualificar publicamente. Por fim, ela ia sozinha as reuniões com a diretoria, bloqueando ao máximo minha comunicação com a direção da ONG e me difamava para os colegas. As humilhações constantes começaram a incomodar alguns colegas mais próximos, que passaram a ser solidários à minha causa, mas ninguém a detinha.
 
Senti no físico o problema: Engordei 15kg, passei a tomar anti-depressivo, tive crises de ansiedade, insônia, baixa resistência imunológica e dermatites horríveis de fundo emocional. Ai realmente passei a não produzir como deveria, para a alegria da minha algoz. Já estava achando que o problema era comigo, quando um psiquiatra me falou que estava sofrendo assédio moral no trabalho. Em vão tentei solução conversando com ela e depois com a psicóloga da instituição. Então passei a documentar todo os fatos: mensagens desequilibradas pelo celular, datas e os nomes das testemunhas que presenciaram xingamentos, acessos de fúria, comentários depreciativos e e-mails totalmente ofensivos. Mas, principalmente, documentei todos arquivos dos trabalhos que eram feitos por mim, passados para ela e apresentados a direção como sendo dela.
 
Todas as provas foram salvas em um dossiê, com as datas e as horas dos fatos, e entregues a direção da ONG. Infelizmente a direção foi omissa em só querer colocar panos quentes ao fato, fazendo com que a sociopata se julgasse vitoriosa, ainda mais poderosa e vingativa. Felizmente, minhas qualificações profissionais me levaram a um outro emprego com salário parecido. Assim que fui contratado, nem pensei duas vezes e, no dia seguinte, pedir demissão da ONG.
 
Ainda hoje me pergunto porque não processei a ONG por assédio moral. Talvez porque meu coração voluntário acreditasse na causa e não quisesse prejudicar o trabalho da ONG que vive de doações. Fiquei sabendo que essa pessoa já havia tido problemas com outros chefiados, que também não agüentaram e também pediram demissão. Realmente o próprio mercado de trabalho puni os maus profissionais e, por fim, fiquei sabendo que ela foi demitida da ONG.
 
Na verdade não me sinto vítima, mas sobrevivente de assédio moral. Sai mais forte e dei a volta por cima. Aproveitei para não apenas mudar de emprego, mas dar uma guinada na minha vida. Emagreci 26kg, me alimento melhor, pratico esporte regularmente, voltei a tocar violão numa banda e nos finais de semana encho a casa de amigos. Para melhorar ainda mais, estou muito melhor profissionalmente, ganhando muito mais que na época. Uma vida muito diferente de quando trabalhei "nos porões inferno", o que pouco a pouco se tornará uma cicatriz na memória.
 
 
Leia mais sobre assédio moral, abaixo:
 
Seminário discute conseqüências do assédio moral
O assédio moral não é doença, mas a causa de vários transtornos psíquicos e até físicos em um número cada vez maior de trabalhadores, explicou a médica psiquiatra e sanitarista Edith Seligmann, que participou nesta quarta-feira (25/4) do seminário gratuito sobre Tutela Jurídica da Saúde Mental do Trabalhador e o Assédio Moral. O evento foi promovido pela Procuradoria Regional do Trabalho de São Paulo (2ª Região).
 
Segundo ela, existe ainda uma grande dificuldade de se provar o nexo causal da conduta de assédio moral com a doença do trabalhador. O evento teve duração de quatro horas e reuniu cerca de 150 procuradores do Trabalho, advogados, sindicalistas, servidores públicos e estudantes do curso de Direito.
Para a médica e doutora em psicologia social, Margarida Barreto, o assédio moral é um fenômeno que envolve tanto o lado individual – como o relacionamento da pessoa com os outros, quanto o coletivo – como a organização no ambiente de trabalho, a relação familiar e até com a sociedade. O assédio, de acordo com ela, tem dois aspectos fundamentais: a discriminação e a humilhação constante.
 
A médica lembrou, ainda, o caso de assédio moral praticado por uma empresa multinacional do setor de aviação que usa polígrafo durante o processo de seleção para verificar se o candidato à vaga de emprego está mentindo na entrevista. "A violência no trabalho vai além da agressão física. Inclui sempre o uso do poder e da força. Esta última pode ser física, política, moral, econômica e psicológica".
Segundo ela, 90% dos casos de assédio moral no trabalho ocorrem de forma verticalizada e hierarquizada. "Já entre os executivos o assédio é mais sutil e, por isso, mais difícil de se identificar", acrescenta Margarida Barreto.
Maria Maeno, médica e mestre em saúde pública e pesquisadora da Fundacentro, disse que a categoria bancária é a que mais sofre com assédio moral no local de trabalho. Dados da Previdência Social de 2002 mostram que 81% dos benefícios concedidos por incapacidade para o trabalho causada por transtornos mentais foram a bancários. "Trabalhar em banco é um cotidiano penoso", diz Maria Maeno.
O procurador do Trabalho da 15ª Região, Gustavo Filipe Barbosa Garcia, falou sobre os aspectos jurídicos da depressão como doença do trabalho. "A depressão é a doença do século", afirmou. No entanto, ele fez questão de ressaltar que para a depressão ser considerada uma doença ocupacional é preciso que haja o nexo causal e a incapacidade para o trabalho.

O seminário promovido pela Procuradoria Regional do Trabalho faz parte das atividades do "Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho (28 de abril)".
Veja as principais vítimas do assédio moral:
— Mulheres em geral
— Pessoas com idade avançada
— Pessoas em situação de estabilidade provisória – gestantes, membros de Cipa, dirigentes sindicais, trabalhadores em tratamento de saúde por doenças relacionadas ao trabalho (especialmente a LER/DORT)
— Homossexuais
— Portadores de HIV
— Pessoas obesas ou com sobrepeso
— Mães solteiras
— Negros: ambos os sexos
Fonte: Revista Consultor Jurídico, 25 de abril de 2007

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