segunda-feira

Meu Pai Não Era o McGuyver

© Mario Persona www.mariopersona.com.br é palestrante, consultor e autor de Marketing Tutti-Frutti e Marketing de Gente.
Meu pai sempre me surpreendeu. Dono de uma habilidade ímpar para contar histórias era também mestre na arte de encontrar soluções simples para problemas do dia-a-dia. Aliás, habilidades gêmeas, pois para contar casos ou criar coisas é preciso conhecimento, imaginação e um grande poder de síntese.
Seu hobby era inventar. Nada que levasse o homem à Lua ou curasse o câncer, mas soluções simples, feitas com coisas simples, para atender necessidades às vezes complexas. Como uma cadeira de rodas dobrável, feita com cantoneiras de ferro, rodas de bicicleta, madeira e lona. Fabricou umas vinte delas na garagem, só para dar asas à imaginação e rodas a paraplégicos carentes.
Máquinas de cortar grama foram três ou quatro, todas com peças encontradas no ferro-velho. Lembro-me de uma, pequena, muito leve, com uma rodinha só, feita com um cabo de alfanje, motor de enceradeira e linha de pescar à guisa de lâmina. Servia para cortar os cantos do jardim. Se eu ainda fosse criança quando o seriado passou na TV, teria acreditado que a profissão de bancário de meu pai era só fachada de sua identidade secreta: McGuyver.
Isso mesmo, aquele capaz das mais incríveis façanhas usando as soluções mais simples. Por exemplo, vedar um vazamento de ácido sulfúrico com uma barra de chocolate, fabricar uma lupa minúscula com uma argolinha feita de fio de cabelo e vinho branco, ou um detector de mentiras usando um medidor de pressão arterial e um despertador. O homem era um canivete suíço em pessoa! Devia dormir em travesseiro recheado de Bom-Bril para sonhar sonhos com mil e uma utilidades...
Se meu pai parecia o McGuyver isso era meramente por hobby. Ele não precisava criar, mas para ele, criar era tão natural quanto respirar. Seu emprego não exigia grandes idéias e talvez fosse a monotonia bancária que o fazia assumir uma nova identidade quando chegava em casa. Muita coisa mudou de lá para cá.
Ninguém mais sobrevive profissionalmente se não for criativo, se não gerar idéias. Mas será que existe criatividade em equipe? Equipes são boas para desenvolver uma idéia que alguém teve ou construiu sobre outras idéias individuais da equipe, de pessoas que construíram... a equipe é uma sucessão de espelhos ad infinitum.
Veja o que John Steinbeck escreveu sobre criatividade em 1952 em seu romance "East of Eden":
"Nossa espécie é a única criativa, e ela possui o único instrumento criativo, o espírito e a mente individuais de um ser humano. Jamais algo foi criado por dois homens. Não existem boas parcerias, sejam elas na música, arte, poesia, matemática ou filosofia. Uma vez que o milagre da criação tenha ocorrido, o grupo pode construir e expandi-lo, mas o grupo nunca inventa coisa alguma. A preciosidade está na mente solitária de um homem".
Em seu excelente texto "The Dumbness of Crowds" em seu excelente blog "Creating Passionate Users", Kathy Sierra cita James Surowiecki, autor de "A Sabedoria das Multidões", como tendo dito que "enquanto formigas ficam mais inteligente à medida que o número de colaboradores aumenta, humanos ficam mais burros". A idéia é que equipes só conseguem produzir idéias medianas, enquanto indivíduos são capazes de idéias extraordinárias.
Mais ou menos como disse Ariano Suassuna em entrevista ao "Almanaque": "Eu leio muito, mas só literatura. As revistas me dão até um pouco de agonia na cabeça. Não gosto muito, não. A maioria é de uma frivolidade muito grande, não me interessam. Tenho horror ao chamado 'gosto médio'. Prefiro o mau gosto ao gosto médio. E a maioria das revistas é feita buscando esse maldito gosto médio."
McGuyver era um que tinha a idéia e às vezes era ajudado por outras pessoas na hora de colocar em prática um novo uso para coisas velhas -- o clipe de papel virava detonador e a caixa de são sabão em pó, explosivo. Mas a idéia de olhar para as possibilidades além da utilidade evidente e usual de um objeto era só dele.
Mas nisso nem meu pai e nem o McGuyver ficam com o prêmio de inventividade. O prêmio vai para dona Helena, nossa cozinheira de muitos anos. Ela já estava idosa quando o marido faleceu. Naquele tempo velava-se o corpo na sala da casa e o velório teria sido um sucesso, não fosse pelo defunto usar peruca e os adesivos da época não serem à prova de sudorese post-mortem.
Você adivinhou -- a peruca escorregou. Mas não escorregou uma vez. Foram tantas, madrugada adentro, que acabou mudando a rotina do velório. Ninguém mais chorava, conversava ou contava piada. Todo mundo ficava de olho na peruca, tentando adivinhar quando seria a próxima escorregada. E ela escorregava.
Paciente, Dona Helena se levantava, ia até o caixão e colocava a peruca de volta no lugar, tentando calçá-la com flores, mas não adiantava. Nem meu pai, sentado ao lado da viúva, nem todas as pessoas na sala, foram capazes de encontrar uma solução criativa.
Cansada de esperar pelo McGuyver, Dona Helena decidiu tomar a iniciativa de encontrar uma solução criativa para o deslizamento da peruca. Pediu a todos que deixassem a sala por alguns minutos e ficou a sós com o finado. Na volta a peruca estava lá, firme e permanente, para alívio de todos. Meu pai cochichou para dona Helena a pergunta que todos queriam fazer:
-- Como foi que a senhora fez? -- perguntou, curioso.
-- Simples. Uma tachinha. Deu dó, mas morto não sente.

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